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Notícias Recreativas e Culturais
Data: 2009-07-02
Caminhada "A Fuga de Soult" - 5 de Julho

A caminhada inicia-se no lugar de Almas (Salamonde), onde o exército francêss desceu até à ponte de Saltadouro por veredas pelas quais se julgava impossível fazer passar um exército, e segue até à Ponte da Misarela, onde se travaram os maiores combates entre os defensores portugueses e as tropas de Soult.

Sobre a ponte da Misarela existem diversas lendas e mitos. Suspensa entre dois penedos parece ser construída por artes mágicas pelo que a sua construção é atribuída ao Diabo. A ponte está ainda ligada a ritos de fertilidade.

No final da caminhada haverá tempo para um refrescante banho no Rabagão num cenário de rara beleza.

Inscrições na actividade (obrigatória)
aaeum.sec@gmail.com
965 425 540 * 914 677 791 * 933 218 331

Motivos de interesse:
A paisagem para a Serra do Gerês e Albufeira de Salamonde, a ponte da Misarela.

Informação adicional:
O percurso é realizado em bons trilhos, a uma cota quase sempre constante e no sentido descendente. A caminhada termina na Ponte da Misarela onde é possível tomar banho nas lagoas do Rio Rabagão.

Importante:
Aconselha-se calçado adequado para montanha, roupa confortável, chapéu, protector solar, alimentação leve e energética e bastante água.

Local de encontro:
9h Braga, Pastelaria Montalegrense (junto à UM)

Folheto caminhada
www.aaeum.pt/archive/doc/Caminhada_-_A_Fuga_de_Soult_.pdf

Outras informações sobre os locais visitados
http://rotasdopatrimonio.com/1504misarela.html
http://www.geira.pt/arqueo/html/sitio98.html
http://www.youtube.com/watch?v=Nq-zHH5Oi2s
 

A ponte da Misarela
[fonte: CM Montalegre]

Conta, então, a lenda que, sabe-se lá quando, um desgraçado criminoso, tentando escapar-se ao longo braço da justiça, acabou por ver-se encurralado, em desespero, nos penhascos sobranceiros ao rio Rabagão. É natural e comum que, em tão adversas circunstâncias, se apele à intervenção divina, mas, talvez porque fosse excessivo o peso dos pecados na consciência, o foragido optou por convocar o diabo, que está sempre atento a estes lances para deles sacar proveito. Assim, foi instantânea a aparição do mafarrico, que não esteve com meias medidas na chantagem do costume: "Salvo-te, pois claro, se me deres a alma em troca". E que importância tem a alma, quando é o corpinho que está com problemas?

Aceitou o celerado a oferta e, logo ali, com o poder que se lhe reconhece, o diabo, enquanto esfregava um olho, fez aparecer uma ponte ligando as margens do rio. Sem olhar para trás, o perseguido atravessou para a outra margem, após o que, sujeito de palavra, o demónio fez desaparecer a ponte, assim travando a perseguição das autoridades.

Retomou o maligno às suas infernais instalações com a alma do desgraçado, mas o assunto não se ficava por ali. Salvo o corpo mas perdida a alma, viria o criminoso arrepender-se da permuta, pelo que decidiu procurar um frade - conhecido na região por viver em estado de santidade - e contar-lhe o sucedido. "Pecado, meu filho, terrível pecado!", conjecturou, supõe-se, o santo homem, passando, de pronto, ao conselho prático: "Vais outra vez ao lugar junto ao rio e voltas a chamar o Diabo, tomando a pedir-lhe ajuda para a travessia. E deixa o resto comigo".

Assim foi feito. O desalmado chama, o cornudo aparece e, com assinalável espírito de colaboração e não menos louvável desinteresse - a'alma do outro já lá cantava -, satisfaz o pedido: a ponte salvadora reaparece. O homem começa a atravessá-la, mas, quando ia a meio, aparece na outra extremidade o frade magano, que rapa da água benta e asperge com largos gestos. Fica benzida a ponte, que permanece no sítio, esfuma-se o mafarrico e o penitente recupera a alma perdida. Consumava-se a vitória do Bem sobre o Mal, mas ficava, ainda, mais que contar.

Vídeo Ponte Misarela - Lenda sobre a origem da ponte 

O Rito da Fertilidade
[fonte: CM Montalegre]

O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveitaa-se da ponte para ali exercer um rito singular.

Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante. Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser. Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:

Eu te baptizo
criatura de Deus,
Pelo poder de Deus,
e da Virgem Maria.
Se for rapaz, será ‘Gervás’;
se for rapariga, será Senhorinha.
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.

O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia. Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família. Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.

Víedo Ponte da Misarela - O rito da fertilidade

As invasões francesas
[excertos do livro "Aqui não passaram! - O erro fatal de Napoleão", de Carlos de Azeredo, Livraria Civilização Editora, Porto, 2005]

Relato da passagem pelas pontes do Saltadouro e da Misarela, entre 15 e 17 de Maio de 1809, das tropas do II Corpo de Exército Francês, comandadas pelo Duque da Dalmácia, Marechal Soult, aquando da retirada das tropas francesas (fim da segunda invasão francesa).

1. A ponte do Saltadouro

"O Major Warre e o Capitão Gomes, chegados a Ruivães, entraram em contacto com o Capitão-Mor António Luís de Miranda de Magalhães e Meneses e é provável que tenham aconselhado o corte das três pontes de que o II Corpo se poderia servir na região:

A Ponte Nova, ou do Saltadouro (...) a Ponte Velha, ou de Rêz, (...) a Ponte de Misarela (...).
(...) Em Salamonde, o Duque da Dalmácia obteve informações de que o Brigadeiro Silveira estava instalado nas apertadas gargantas da Serra da Cabreira, barrando-lhe a estrada de Braga para Chaves; (...) Deste modo, Soult decidiu rapidamente abandonar a estrada para Chaves e seguir a vereda para Montalegre.

Ninguém julgaria possível fazer passar por ali um exército (...). Por aí se lançaram as tropas francesas, rotas, descalças, famintas e escorraçadas (...).

(...) Soult foi também informado de que a Ponte do Saltadouro, ou Ponte Nova (...) estava defendida e possivelmente cortada, por populares e algumas ordenanças.

Em verdade, o Capitão-Mor de Ruivães, António Luís de Miranda Magalhães e Meneses, mandara convocar, pelos párocos das freguesias próximas, as Ordenanças da sua área, e ao seu apelo acorreram cerca de 1300 homens, dos quais a maior parte tinha como armamento simples utensílios de trabalho, piques ou algumas espadas velhas; só muitos poucos se encontravam equipados com obsoletas armas de pederneira e tinham como apoio duas velhas peças de artilharia.

(...) O Capitão António Luís de Miranda, ainda neste dia, dispôs as suas forças ao longo da escarpada margem direita do rio Saltadouro ou de Ruivães, entre a Ponte de Rêz na estrada para Chaves e a Ponte de Saltadouro no caminho para Montalegre.

Junto de cada ponte colocou uma das bocas de fogo de que dispunha e mandou ainda algumas forças para a Ponte da Misarela; os efectivos colocados junto de cada uma destas três pontes tinham como missão efectuar o seu corte e levar a cabo a sua defesa.

No Saltadouro, os defensores levaram a cabo a tarefa de cortar o único arco da ponte com bastante rapidez e ao fim de algumas horas a passagem estava cortada.

Soult não perdeu tempo: mandou vir à sua presença (...) o Major Dulong Rosnay (...) e encarregou-o de, com 100 homens à sua escolha, conquistar a passagem da Ponte do Saltadouro por uma acção de surpresa durante a noite.

(...) O bravo Major (...) a coberto da noite, aproximou-se em completo silêncio dos restos da velha ponte (...). Dulong deixou os seus homens escondidos nas proximidades e sozinho adiantou-se para estudar a situação; (...) e ali constatou com espanto e incredulidade que os defensores (...) tinham deixado uma prancha estendida entre os dois braços da ponte.

Esquecimento? Desleixo? (...) Na verdade, um daqueles acasos imprevistos e inacreditáveis que tantas vezes alteram o curso da história!

Dulong voltou a rastejar até à ponte e fez passar atrás de si, um a um, os seus militares ao longo da prancha, olhos fitos na voragem do abismo (...) Assim, o Major foi colocando a sua força na margem oposta e cercando nas trevas a cabana onde se abrigavam os incautos defensores da ponte, cuja sentinela fora abatida com um silencioso golpe de sabre.

E foi de súbito, sem tempo para reagir, que os ensonados camponeses vislumbraram, à luz ténue dos restos de uma fogueira, o lampejar do aço frio dos sabres e das baionetas (...).

Poucos segundos (...) bastaram para consumar aquela tragédia quase silenciosa.

(...) As restantes forças do Capitão-Mor, finalmente alertadas com o que se passava junto à ponte, tentaram reagir, mas ao perceberem que os franceses tinham passado já a ponte em número que a escuridão e a surpresa multiplicavam assustadoramente, debandaram em pânico, monte acima!

(...) A passagem dos franceses com os seus 4000 cavalos, sobre uma estreita passagem sustentada por alguns troncos sem guardas, demorou o dia todo (...).

Mas após duas horas de marcha a tropa francesa foi detida no sítio da Ponte da Misarela, sobre o rio Rabagão: o pesadelo de Soult ainda não terminara!"

2. A Ponte da Misarela

"Entricheirados na margem direita, guardando a ponte, cuja passagem estava barrada por pesados obstáculos, aguardavam cerca de 400 homens, comandados pelo Sargento-Mor José Maria de Miranda de Magalhães e Meneses, filho do Capitão-Mor de Ruivães.

Mandado na véspera para a Misarela, por seu pai, com a incumbência de cortar a ponte e efectuar a sua defesa, o José de Miranda não conseguira convencer a maior parte dos seus homens, naturais da região, da absoluta conveniência em cortar o arco da ponte.

Como haviam de passar o rio com as suas colheitas ou os seus gados? Como passar para irem à feira ou a Ruivães, quando as águas fossem grossas? Para mais, o que era necessário era pôr fora da nossa Terra os franceses! Para quê cortar-lhes a passagem para a fronteira? Quem fez a Ponte de Misarela não nos faz outra como ela! (...)

Impotente, o Sargento-Mor dispôs as suas forças pelas escarpas que dominavam a passagem, abrigadas atrás da penedia e dos robustos castanheiros e carvalhos que ali cresciam.

A meio da manhã foram avistados os primeiros militares inimigos avançando rapidamente para o Rabagão; eram uma longa fila, interminável, de homens e animais, fatigados, que marchavam para Norte acossados, mas que a fome, o número e o ódio ainda mantinham temíveis, perigosos e violentos.

Assim que a guarda avançada do II Corpo chegou à distância de tiro, os defensores romperam com um fogo nutrido que dizimou o pelotão da frente e fez recuar, surpreendidos, os que se lhe seguiam.

(...) Soult, uma vez nas proximidades da ponte, estudou a situação cuidadosamente e encarregou os Generais Loison e Heudelet de montarem e executarem um ataque a fim de tomar à viva força a passagem, e as posições portuguesas.

(...) Após vários assaltos frustrados que se prolongaram ao longo do dia 16, esta força logrou, ao fim da tarde, conquistar finalmente a passagem e desalojar das posições mais próximas os camponeses (...)

Vencida esta dificuldade, com bastante perda de tempo, pouco descanso tiveram as tropas de Soult para admirar a beleza da paisagem (...)

Na realidade, a largura exígua da ponte da Misarela, agravada pela destruição das suas guardas, dificultava a passagem, com grandes demoras causadas pela resistência das mulas e dos cavalos que se apavoravam com o abismo. É ainda preciso ter em conta o grande alongamento imposto pela vereda que obrigava as tropas a desfilarem em frente por um, facto que levava a que o II Corpo tivesse já a sua testa para lá da Ponte da Misarela enquanto a sua retaguarda se mantinha entre Salamonde e a Ponte do Saltadouro.

(...) Ao ouvir-se na retaguarda o troar da artilharia e basta fuzilaria, as tropas imobilizadas, sem poderem manobrar para se defenderem, e sentindo-se completamente indefesas caíram no pânico.

Muitos homens, ainda na vereda, procuravam avançar a todo o custo empurrando os camaradas da frente, atropelando-se uns aos outros para chegarem às imediações da ponte; na sua ânsia de escaparem de uma terrível situação, lançavam fora armas e equipamento; (...) muitos homens na ponte eram atirados ao abismo pelo aperto e pela confusão (...)

Foi uma situação terrível, que poderia ter-se transformado numa autêntica catástrofe se a noite próxima não viesse suspender os ataques dos perseguidores.

(...) A última tropa de Soult a passar a ponte da Misarela e a deixar aquele cenário de morte e horror, foi a Brigada Reynaud da Divisão Merle, entre as dez e a meia-noite de 16 para 17.

(...) Quando na manhã seguinte os perseguidores de Soult se aproximaram da Misarela, encontraram um espectáculo que lhes deu a dimensão do terror e da tragédia por que tinham passado os franceses (...)."

 

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